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Paulo

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Escritor,compositor,cantor,professor de francês.Escrevi o Dia de Santa Bárbara.Fiz musica p/Golpe de Estado, Adiel,canto a canto.Trabalhei com as bandas A casa caiu e Big Balls.Escrevi novo romance sem editora no momento. Il n´y a plus rien !

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SALVEM O FÉLIX

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paulo
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(no name)
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André
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Fernanda
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luiz_55
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Ludhmila

May 06

Não responde

                 Não responde
 
   Bom, aí levei o envelope para o médico. Eu já o tinha aberto e ele não gostou. Foda-se! O sangue é meu e pronto.
   Sentei-me do outro lado e fiquei olhando para os diplomas do kara nas paredes de seu consultório. Era jovem, uns trinta e poucos anos.
 
       ___ O senhor bebe muito ?
       ___ Sempre que posso, sim.
       ___ E sua alimentação ?
       ___ Muitas Proteínas. Vitaminas, sais minerais, carbo-hidratos, lipídios...( isso tudo tem na cerveja. Ou não?)
       ___ Bem, pelo seu exame, o sr. deveria fazer uma troca de sangue.
       ___ Komo assim, trocar meu sangue? Sabe quanto deve custar essa bricadeira? Não sou o Kate Richards!
       ___ Ele riu(eu não achei graça), e disse: É que seu fígado não responde mais.
      
      Olhando para os seus diplomas pensei;__esta lorpa tá pensando que tá falando com quem? Então respondi:
       ___ Vai ver que é porque eu não mando fax, e-mail ou lhe telefone. Como assim, doutor ? Quem responde é quem fala, caralho! O fígado é um orgão! Ou funciona ou não funciona! Não responde! Não responde! E o que eu faço? Mando uma carta de amor pra ele responder, bosta! Kada uma!
 
Paulo de Tharso  
May 02

Presságio

                            Presságio
 
 
    Passei no laboratório para pegar o resultado do exame de sangue! Helas!
    Decidi que abriria depois de encontrar-me com Fernado Carvalho e decidir qual música iria para o Visa! Na rua, enquanto esperava o ônibus, uma mendiga parou na minha frente e ficou me olhando, com uma expressão compadecida.Catei algumas moedas no fundo do bolso e oferecia a ela.Ela não aceitou as moedas, apenas ficou me olhando. Aquilo não chegou a incomodar, mas eu achei estranho. Então, ela olhou bem dentro dos meus olhos e disse__" Deus te proteja, meu filho." E saiu andando. Tudo o que eu presisava, era um presságio como esse, pensei enquanto apertava a campainha da casa do Fernando. Bem na hora de abrir o resultado do exame, e faltando quatro dias para estrear como aprendiz de ator. Um Karikator!
April 25

L´Enfance

                       L´enfance
 
 
 L´Enfance
 Qui peut nous dire quand ça finit,
 Qui peut nous dire quand ça commence
 C´est rien, avec de l´imprudence
 C´est tout ce qui n´est pas écrit.
  L´enfance
 
 
 A infância
 Quem pode nos dizer quando isso termina
 Quem pode nos dizer quando isso começa
 Isso não é nada, com a imprudência
 É tudo isso que não está escrito.
 A infância
      
 Jacques Brel
February 12

AINDA GRITA A GUITA DE HENDRIX

              
            Ainda grita a guita de Hendrix     
 
 
       Eu estou ouvindo Hendrix. Estou trancado, sem beber.
       Estou quieto. Por dentro um vulcão.
      O Marcicano ligou hoje pra me convidar para seu show no Sesc Santana na quarta-feira, dia 15/02, às 21hs. Ele e  banda vão tocar Hendrix. Eu vou. Sóbrio e só.
 
       Em Seattle há apenas dois tipos de dia: chuvoso ou com neblina. É uma cidade austera, no alto do mapa oriental dos Estados Unidos. Lá, onde ondas ferozes do Pacífico Norte cospem suas águas. Ordeira e tristonha, é uma cidade de brancos. Não tem uma tradição linda como as cidades do delta do Mississípi, encharcadas de alcool, sangue, suor e blues. Não é como Nova Orleans, onde até os Zumbis dançam. Não é nem como Chicago, nervosa e elétrika. Então, como é que Al Hendrix foi parar ali, aparando gramas dos jardins dos brancos?
 
Paulo de Tharso
January 14

Essas coisas acontecem-Final

         Essas coisas acontecem-Final
 
O kara da faca colocou a ponta da lâmina fria em minha nuka. Fechei os olhos e ouvi o disparo de uma arma. Sempre me perguntei como seria levar um tiro. Não quero morrer imediatamente. Queria passar pela experiência. Por isso sempre bebi. Morte lenta e gradual. O Fininho dizia o contrário. Dizia que queria morrer de um tiro certeiro. Conseguiu.
 
Esperei a dor. Então, o kara da navalha escorregou e sentou. Foi assim. Inclinou-se lentamente para frente até a testa encostar a calçada dura. Parecia um Mulçumano rezando.
 
Quando olhei para cima, vi Noebu com o colete da Polícia Civil e uma arma apontada para Júnior. O segundo cara tentou fugir, mas três outros policiais__ou não__, saltaram da viatura escura e pegaram o kara.
 
__ O que você pensa estar fazendo, maluko?__perguntou Noebu, colocando o cano frio na testa de Júnior.__ E você, laranja, trata de sumir daqui e esquecer esta história. Isso acaba aqui.__emendou Noebu, colocando Júnior na muito escura viatura.__ Consegue andar?
 
Levantei a mão com dificuldade confirmando. A viatura saiu queimando os pneus e eu levantei-me bem devagar, escorado pelo muro. havia curiosos espalhados ao longo da rua. Algumas putas e travestis foram solidários oferecendo-me ajuda.
 
__ Consegue andar?
 
__ Coitadinho!
 
__ Quer que chame um táxi?
 
__ Quer ir pra Santa Casa? É pertinho!
 
Segui cambaleando pensando ter vencido os filhos da puta. O gosto morno e doce do sangue havia sumido, mas senti um latejar forte no olho direito, que de tão inchado, dele fiquei cego. Havia uma nova informação por trás daquela surra. Mas iria demorar a entender.
Pensei em como seria bom um gole daquele uísque, agora esparramado na calçada. Passei a língua por toda boca e percebi a falta de dois dentes. Os chutes foram fortes. Entrei em um bar pé-imundo na Bento Freitas, sob o olhar de escárnio da distinta freguesia. Pedi uma cachaça. Como primeiro gole, fiz uma limpeza geral num bochecho e cuspi. Depois bebi o resto em uma só talagada. Paguei e decidi que seria bom ir para kaza. Na portaria do meu prédio, a kara de espanto e horror do porteiro, convenceu-me de que eu estava realmente um trapo de gente. O porteiro sem acreditar arriscou a pergunta:
 
__ Meu Deus, o que foi isso?
 
Pensei em não dizer nada, mas involuntáriamente balbuciei:
 
__ Essas coisas acontecem.
 
 
Paulo de Tharso
 
January 13

Essas coisas acontecem-2

 
             Essas coisas acontecem-2
 
 
         Na noite seguinte, ao acordar, senti que precisava de um remédio qualquer. Ao levantar-me no escuro, tropecei em algo. Acendi a luz e lá estava o remédio: uma garrafa de Buchanan´s.
Lavei a cara com gelo, troquei de camiseta, bebi dois copos do " Luxe Finest Bland" e fui para rua carregando comigo a garrafa, embrulhada em um saco de pão.
 
Fui para um bar em frente ao teatro Cultura Artístika, na Nestor Pestana. O dono do bar, um português amigo, sempre deixou que eu ficasse por lá, bebendo da minha garrafa, sem me encher o sako e sem cobrar nada. Depois de uma hora, tentando em vão ganhar alguns trokados naquelas máquinas barulhentas, olho para trás e percebo Júnior, na companhia das putinhas da noite anterior. Conversavam em uma mesa.
 
Ele entregou algo para as meninas, levantou-se e saiu. Não sei o que me deu na cabeça, mas saí atrás dele. Ele caminhou pela Nestor Pestana até o seu final. Atravessou a Consolação, passou pelo Bradesco e foi direto para Repúblika, alcançando rapidamente o Arouche e seguindo para o centro velho. Depois do Arouche, as ruas são escuras e desertas. O Buchanan´s já fazia efeito e eu não dei atenção à estranheza, continuando atrás do kara. À direita da Reigo Freitas, havia um prédio abandonado, e nesse ponto, a rua estava ainda mais escura e deserta. Foi aí que aconteceu o presumível. Percebi um movimento ao passar pelo prédio e,  antes que eu pudesse me dar conta,  dois karas tinham pulado o portão acorrentado e estavam em cima de mim. Caí e senti o gosto adocicado e morno do sangue na boca. Um  deles sentou-se em minhas costas, prendendo meus braços por trás. Ao cair, vi meu Santo James Buchanan espatifado na calçada, aos pés de Júnior que tinha voltado.
 
__ E aí, mané? tá me seguindo por quê?
 
__... Ai meu braço, caralho! Caralho, vai quebrar!
 
__ Levanta, filho da puta!
 
Um kara segurava o meu braço enquanto o segundo fazia eu escutar o estalido de uma faka automátika. A seguir vi uma lâmina de vinte centímetros.
 
__ Manda soltar, Júnior!
 
__ Tenta se safar, piolho!__ senti a ponta da faka no pescoço.
 
__ Teu pai não era assim!
 
__ Meu pai tá morto, seu bosta.
 
Ele riu e me empurrou contra o portão do prédio abandonado. Cuspi sangue.
 
__ Que merda você pensa que tá fazendo, kara?
 
Os lábios dele mal se moviam quando falava, como se as palavras viessem do estômago. Estava completamente ligado de pó.
 
__ Quero que esse babaka solte meus braços! Agora!
 
__ Escuta aqui, seu merda;... eu já estou de sako cheio dessa história de livro. Cê não vai escrever porra de livro nenhum! Meu pai não sabia o que estava fazendo. E essa história morreu com ele, e morre aqui com você, tá sakando? Quero a merda do dossiê que ele deixou com você.
 
__ Nem fudendo!
 
O punho de Júnior era rápido e forte. Ele tinha a estrutura fízyka do pai e, por um átimo de segundo, pensei ter sido o próprio Fininho que tivesse me acertado. Dobrei o corpo e o outro kara, o da navalha, me deu um pontapé no queixo. Senti um tranco no maxilar inferior. Quando caí, tive a sensação perversa de satisfação por ter conseguido, afinal, que o outro me soltasse o braço.
Rolei e me ralei antes de conseguir me sentar. Etiquei o braço. Doía, mas não parecia quebrado. Cuspi mais sangue.
 
 
__ Levanta esse Kara!__ disse Júnior.
 
Eles me levantaram.
 
__ Agora escuta, kara de ku; Você anda dizendo por aí que meu pai foi morto por causa da investigação da morte do prefeito C.D, não anda?
 
__ Por que se incomoda com o que penso?__ perguntei.
 
__ Não me incomodo com o que você pensa. O que me incomoda é o que você vai escrever neste livro porco. Você acha que depois de cumprir 45 anos de cana ele iria por tudo em risco investigando uma merda dessas?
 
__ E investigou. Ele me contou. Aliás, foi por isso que o mataram. Ele foi direto, lá,  na cúpula do Governo Federal.
 
__ Meu pai tava velho! Usava cocaína e tomava prozac, sabia?
 
__ Dei uns tirinhos com ele, seu Zé.
 
 Ele me bateu de novo, no mesmo lugar, mas desta vez não caí. Só cuspi mais sangue.
 
__ Você anda tão ocupado em ficar fazendo conjecturas absurdas pra esse livro que está por fora das coisas, kara.
 
__ Conjecturas?
 
__ Meu pai se matou. Ele já estava morto antes de sair da cadeia. Tava jurado de morte. Você acha realmente que o E.M acabou? Vou te mostrar que não, filho da puta!
 
( continua amanhã )
 
 
 
 
 
 
 
 
January 12

Essas coisas acontecem

                Essas coisas acontecem
 
                                           parte 1
 
 
Quando eu cheguei na esquina da Bento Freitas com o largo do Arouche, Noebu me esperava na companhia de uns policiais do DENARC. Havia umas putas brincando com as algemas de um dos policiais.Putinhas adoráveis.
Isso eu já esperava. O que eu não esperava era encontrar o Jùnior, Filho do Ademar, o Fininho do E.M, junto com o bando. Mas tudo bem! Foi até bom! Pelo menos tive tempo de sacar qual seria a conversa e de preparar-me__ "Ma no Tropo"__, para o que viria em seguida.
 
 
__ Aí, não falei que o maluco chegava?__disse Noebu, falando para dentro enquanto engolia a fumaça do baseado. __Pois aí tá o cara!
 
Noebu é branco, de Moçambique. Na verdade ele é filho de pai português e de mãe africana. Sua pele é de cor amarelo-pálida. Da cor do sol, quando encoberto pela poeira dos desertos, entende? Sua breve história: Seu pai era um ativista de esquerda, simpatizante das milícias de libertação na Áfrika. Sua mãe, uma camponesa (nessa época, ainda que rudimentar, as tribos tinham um sistema de auto-gestão, onde conseguiam permanecer na linha da pobreza, e não abaixo da linha da miséria como hoje), por quem se apaixounou. A ela, além das doutrinas Marxistas e técnicas de guerrilha, o pai ensinou a lewr e a escrever. Mais tarde, ela aprendeu aritmétika, matemátika, história, francês, inglês e filosofia. Depois da morte de seu marido ela foi para Cuba, seguindo posteriormente para França. Lá, estudou medicina e foi para Timor Leste, onde morreu durante a guerra civil.
 
Para Noebu, no entanto, o destino reservou uma vida de lutas, prisões, eternas fugas e finalmente o exílio no Brasil. Sua transformação de guerrilheiro em traficante de drogas é uma história obscura cujos detalhes desconheço. Sei que o conheci através de Ademar, o temido Fininho, do Esquadrão da Moret de São Paulo, liderado pelo carrasco Fleury Paranhos.
 
 
Fininho, depois de cumprir 45 anos de prisão por 142 homicídios durante sua permanência no E.M, estava finalmente prestes a ser libertado, quando leu o meu úniko livro" O Dia de Santa Bárbara". Resolveu então que eu escreveria sua história. Infelizmente sua morte veio em seguida, interrompendo a série de entrevistas que eu vinha fazendo com ele, obrigando-me a investigar por conta própria o período de terror do E.M, e de sua morte repentina em circunstâncias bem estranhas. E pior; Para que eu possa terminar este trabalho, sou obrigado a reportar-me ao filho. Essas coisas acontecem.
 
__ E aí, tudo bem?__ perguntei sem ânimo.
 
__ Cê tá atrasado!__disse Noebu.__Quer um peguinha?
 
__ Tava ocupado.__respondi sem vontade. __ Não, tô de kabeça feita.
 
__ E o lance da história do meu pai, como é que fica? __ perguntou Júnior.
 
__ Como combinei com o teu velho.__ Respondi acendendo um cigarro.__A capa é minha e eu passo metade dos os direitos para vocês, se virar filme.
 
__ Ganancioso você, né?
 
__ Tenho que pensar no futuro.
 
__ Quer uma?
 
__ Hoje não!
 
__ Tô falando das meninas!
 
__ Eu também! Tô indo. Tchau, Noebu.
 
Antes que eu desse de ombros, Noebu pegou-me pelo braço e me acompanhou durante alguns passos.
 
Vai devagar maluco! O cara é ruím como o pai e não gosta de você como o velho gostava. ele acha que você tà querendo se dar bem com a estória do defunto. Eu tô tentando administrar o lance, mas ele é doido de pedra e só anda com esse bando do DENARC. Não vai fazer merda!
 
Fiz um maneio com a cabeça e fui embora, deixando Noebu para trás.
 
__ Pentelhos__ pensava com os meus botões.__ Bando de filhos da puta! Faço o que me der na telha!__ fui para o bilhar e joguei até às 06hs da manhã.
 
(continua amanhã)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
January 05

Caixas de Vidro

                                              
                                      Caixas de Vidro
 
 
   Ao redor da minha vida
   há certas caixas de vidro,
   dentro das quais se ouve
   o rosnar de um bicho.
 
   Sigo preso ao pulso,
   no tic-tac do curso.
   Estou pendurado no muro
   Pois ao redor da minha vida
   Há certas caixas de vidro.
 
Paulo de Tharso      
December 09

Manhã

                                                  Manhã (dia de Fúria)

 

São 07hs da manhã.

 

Bom dia Vietnã!

Fui dormir às 04:30, 05hs, bêbado, como sempre. Pouco importa. O que importa é que me levanto tão logo desperto. Sempre assim? Toujours comme ça! Arrasto-me pelo quarto, eu coço o saco, atravesso o corredor e entro na cozinha. O cigarro apagado no canto da boca, a tosse seca e alta.

 ½ Copo d´água, uma colher de germe de trigo,uma de levedura de cevada, uma de linhaça e uma de guaraná em pó. Um comprimido de alcachofra que arremato com um café preto e forte. O Félix passeando por entre minhas canelas, ronrona;__ Minha ração, seu merda!

 

Enquanto sorvo os líquidos, passo os olhos por sobre o carnê do aluguel, as contas de gás, luz e taxa de lixo (esta eu não pago desde 2003).

 

O trono, no banheiro, é o primeiro assento do guerreiro.

 

(continua)

 

 

Ligo o chuveiro.Bocejo. Agora a escova e a pasta de dentes. No espelho, olhos de rã me espreitam e parecem dizer; ”Este cara não tem a mente sã.”

Banho tomado, cabelo molhado, corpo vestido, volto ao quarto e ela está em sua morte aparente. Tenho vontade de esbofeteá-la, como se esbofeteia alguém para tirar-lhe de uma síncope, só para perguntar-lhe;__ Você não tem raiva? Você não tem raiva de se assumir assim, nessa lenta senectude, enquanto, lá fora, existem mais de 98.000 espécies de flores, espécie de idiota? Mas não o faço.

 

Agora são 08.hs da manhã, e eu já estou me empacotando na desordem das massas. Lotação. “Dizem as más línguas que ele até trabalha/ mora lá longe e chacoalha/ num trem da central”. Bendito Chico Buarque! Café com pão, café com pão na seara de um só dono.

 

__Bonjour, Mademoiselle MTV. Savez-vous votre leçon? Et c´est parti!

 

Advogados(as), estudantes, vjs, um ator e um pianista são os pratos do dia.

A manhã passa e, ao meio-dia, já dei cabo de um estudante, __o outro cancelou__  de dois advogados e um vj.

 

Ligo para um amigo que é escritor e o convido para almoçar;

__ Não vai dar Paulinho, marquei almoço com uma cabrita, he, he, he!

 

Comida no prato e me calo com a boca de feijão. Maldito Chico, de novo!

 

Depois do almoço leio o jornal e ainda faltam um ator e um pianista. Mas que “Cazzo” quer um pianista com o francês? Acha que tocará melhor Ravel?

 

Entre um ônibus e outro metrô, ocupo-me com textos daquele escritor amigo, __ que preferiu cabritas a almoçar comigo__ ousando preferir o que ele escreve às “estruturas”, que não são seus fatos, mas artefatos, fruto das análises de exegetas mais ou menos inspirados, descubro que Joana a contragosto é demais!

 

O ator me recebe;

 

__ Bonjour, professeur! Est-ce qu´on peut lire aujourd´hui  La viande” de Michel Rachline?

 

__ Dac! Pourquoi pas? On fait ce qui tu veux!

 

Graças um  grande dramaturgo, ator,  escritor esmerado,  meio cantor e compositor interessante, amigo de copo e de fé desde 2002, passei também a carregar, na mochila, um Frank Miller. Minha última aquisição foi “A Cidade Do Pecado”. De volta para casa, num transporte público lotado, nada melhor para se ler.

 

Não me privo o direito à ignorância, por isso, coloco um bigode na Gioconda e chego em casa para ouvir a marcha fúnebre de Chopin, antes de sair novamente para beber um chope e escutar um Jazz no bar do Régis Trovão.

 

São essas tolices que revelam minhas verdadeiras perspectivas. Nenhuma!

 

Navego na internet, visito os blogs com seus “brilhantes” comentários, toco  uma velha canção ao som do meu velho e ranço violão, ligo para alguém, __ caso o telefone não tenha sido cortado__ para falar besteiras, reclamar da vida e desmoralizar o político do dia.

 

De volta à rua, vou ao teatro, ao bar, ao copo e aos movimentos das bocas balbuciando palavras vãs, palavras sem razão...Palavras. Risadas obscenas cortam o ar, e a vida na praça é__não necessariamente nessa ordem__, alegre e triste. E lá, cantamos todos; “Vapor Barato”. Oh minha honey Baby/ Eu vou andando por todas as ruas... Pois é Waly e Macalé!

 

Escuta de uma nova amiga, talentosa como uma estrela e caprichosa como o sol, que essa misoginia velada vai estragar tudo. Ela tem razão.Em um determinado momento nós, os kães vadios, nos tornamos cafajestes escrotos, arrotando frustrações.

 

Depois da meia-noite, a madrugada avança veloz.

 

A minha flor me liga e me caça. Eu, mandrião, disfarço a voz bêbada. De qualquer modo, volto com ela. Corremos pela av. São Luis até a porta de casa. Nos despedimos da cidade e da madrugada, com um longo beijo na boca. Entramos no nosso pequeno apartamento e deixamos o mundo lá fora, do mesmo jeito que o encontramos. Tentando ser melhor ou pior. Mas sempre tentando.

 

São 07hs da manhã.

Bom dia Vietnã.

 

Paulo de Tharso

November 27

A Ira de Deus

                    A ira de Deus
 
 
         Glauber Rocha e João Ubaldo integravam a lista de autores do livro Panorama do Conto Baiano, que a Editora Progresso ia publicar. Estavam na companhia de Jorge Amado, Adonias Filho e outros nomes fudidos, o que era uma responsabilidade. Na sua exitação, Glauber visitava freqüentemente as oficinas dea Imprensa Oficial, onde o livro estava sendo feito, para revisar as provas. Um dia encontrou lá o sorridente Batatinha, tamborilando sua caixa de fósforos. Ele cantarolava:
 
__ Meu desespero ninguém vê/Sou diplomado em matéria de sofrer.
 
__ Que múzyka é essa, batatynha?
 
__ Filosofia.
 
__ Vou botar sua múzyka num fylme meu.
 
 
         Voltou para a redação do Diário de Notícias com a música de batatinha na cabeça, mas lá concentrou toda sua atenção no cinema. Mais um estrangeiro estava na Bahia para realizar um filme sobre o Brasil. desta vez era Marcel Camus. Sentado diante da máquina, soltava o verbo enquanto escrevia:
 
__ Deus nos livre dos estrangeiros. Até hoje, noventa por cento do nosso cinema foi abaixo por causa de uns italianos que chegaram aqui e foram bajulados pelo snobismo capitalista de São Paulo.
 
          Depois do desabafo contra a Vera Cruz, escreveu, catando milho, que só John Ford poderia realizar aquela aventura criando um filme épico, sem cair no cartão-postal. Um ano depois, ele terminava o filme
"A ira de Deus".
 
            Assim creio que tenha sido para o Bortolotto, quando escreveu o blues que eu tanto gosto( e que minha memória teima em trair), que deve ter pensado na indústria Porn..., quero dizer, phonográfika.
 
Paulo de Tharso
 
 
November 14

Falando sobre Facienti quod in se est Deus nos denegat gratiam

 

Citação

Facienti quod in se est Deus nos denegat gratiam
      Facienti quod in se est Deus nos denegat
                        gratiam
 
         Esta máxima da teologia medieval corresponde exatamente ao provérbio da filosofia oriental._ " Quando o discípulo está pronto, então o mestre aparece.
 
         Pois então, kreyo que não estou pronto e jamais estarei.
 
         Nenhum mestre, nenhum Deus apareceu-me.
Estou isolado e só. Não há kamynho ou amor possyvel para o meu koração.
 
          "Merda, sou lúcydo"!
 
         Me resta o espaço, que é kurvo.
 
         Saber que a menor distância entre dois pontos
         não   a linha
              é          reta.
 
         Que o universo é finito, mas ilymytado.
 
         Que o tempo é relativo e não pode ser medido
         exatamente do mesmo modo e por toda parte 
 
         Que as medidas e tamanhos variam kom a  velocidade.
         Que o universo tem forma cylíndryka e não esféryka.
 
         Que é preciso perder tudo para possuir tudo.
 
         Que tenho de estar vazyo de tudo para ser
                                              plenifykado.
 
         Que tenho de renunciar ao ter a fim de ser.
 
         Que merda! Soy lúcydo
 
O que é explykável não é integralmente verdadeiro
 
O talento explyka, implyka e komplyka
 
Mas o gênio sabe intuityvamente o inexplikável.
 
Por onde ando, sempre em linha torta, enkontro
talentos e mais talentos. Todos tão próprios e sábyos!
 
Então, a mim só resta sentar-me bêbado na sargeta,
olhar as estrelas e balbucyar besteyras.
 
Porque, merda; soy lúcydo!
 
paulo de tharso
November 09

Marya Favela

                                    Maria Favela
 
 
 
 Ladeira
          abaixo
                  lixo
                      e mizéria
 
 
 
Mizéria
         é o
             nome         
                    de
                       minha                 
                               kadela.
                            
  tem
      três
          patas,
                 mizéria.
 
 
     A quarta o destino arrancou nas olympyadas da fome 
 
 
Mama
       lama
            mata
                  lata
                      drama
                             trama
                                    gererê
 
A
  menina
           da
              favela
                     lava
                         passa
                                ferro
                                       e
                                         vê
 
A
 Maria
       da
          Favela
                 rebentando
                               pra
                                  viver.
 
No 
  koração
           da
             menina
                      vai
                         passando 
                                    uma
                                         novela
 
 
numa
       vala
            lava
                  dor
                      de
                         Maria
                               favela.
 
 
 O safado não trabalha
                             tá na praia ou no bylhar
 
E a koytada é que se acaba
                             pra poder lhe sustentar
 
e
 deus